Perene

Thursday, December 29, 2005

Milagre da Páscoa

O desespero era notório na face de Harim. As feridas que surgiam no corpo de Hadassa vinham confirmar as suspeitas de lepra que atingiu sua esposa. Agora só resta enxugar as lágrimas, afastar seus filhos Úri, de 8 anos, Ofir de 5 e Vasti, uma menina de 3 anos e manter sua mulher reclusa em casa para que seus vizinhos não a expulsem em direção ao campo dos leprosos, para sempre.
Sua memória o levou de volta a nove anos atrás, quando aconteceram as grandes festas de Páscoa em Jerusalém. Foi num domingo, a caminho do Templo, que ele conheceu Hadassa em suas lindas vestes que deixavam transparecer, apenas as suaves mãos e seu lindo rosto jovem de 17 anos. De tudo fez para ficar próximo, sem chamar a atenção de sua família, provavelmente pai, mãe e um casal de irmãos menores, que a acompanhavam.
No fim da cerimônia religiosa, na saída do Templo, os pais e irmãos daquela linda mulher se detiveram para saudar uma pessoa amiga e a menina, feito moça, afastou-se um pouco mais do grupo.
Harim não perdeu a chance de aproximar-se e, fingindo acidente, esbarrou suavemente na moça e quase em sussurro, pediu-lhes desculpa. Suas faces ficaram frente a frente à pequena distância e seus olhos penetraram-se mutuamente na busca da alma do outro.
“Meu nome é Harim, e o seu?” ... “Hada... Hadassa” respondeu ela após um breve gaguejo. Os pais dela aproximaram-se, sem perceber o “incidente” e ela os seguiu com destino ao lar.
Harim seguiu seu caminho para casa com a alma aos pulos, tentando equilibrar-se para evitar um possível tombo. Na sua cabeça, aquele encontro se repetia como uma queda d’água: sem parar.
O diálogo de cinco segundos parecia cinco séculos de história. Ele já sabia tudo sobre ela: que suas mãos eram lindas; que, sua face era angelical; que seus olhos tinham o azul do céu, a profundeza do mar e o domínio do amor; e que sua voz tinha o som dos sete sinos da felicidade. Ah! Sabia também que seu nome é Hadassa e tornou-se o nome mais bonito que ele já ouvira.
Harim estava em Jerusalém há poucos meses, mudou-se com a família em busca de vida melhor. Seu pai era comerciante ambulante em Jericó, próximo às margens do rio Jordão, e ele, por vontade própria, aprendera a arte de olaria e cerâmica.
Conhecia poucas pessoas em Jerusalém e percebeu que Hadassa e sua família eram pessoas conhecidas e respeitadas no lugar. Foi fácil chegar até sua casa e após sua apresentação e demonstração de suas intenções conquistou rapidamente a família de Hadassa.
O coração da moça já pertencia ao rapaz há mais de mil anos, apesar dele ter apenas vinte e era assim que ele sentia. O noivado e o casamento transcorreram em dezoito meses e, daí em diante, tiveram uma vida conjugal em perfeita harmonia e felicidade, como era esperado, e frutificaram desta união três lindos filhos ao longo dos últimos nove anos.
Agora Hadassa foi colhida por esta catástrofe chamada lepra e Harim nada podia fazer, senão pedir a Deus pela salvação de sua amada esposa. A primeira providência que poderia ser adotada seria levar seus filhos para a guarda de seus avós paternos que nesta ocasião estavam morando numa cidade vizinha de Betânia, por quanto os avós maternos estavam em peregrinação em Cafarnaum, na Galiléia, sem saber do grave estado de saúde da filha.
O dia amanheceu no Sábado e Harim fez saber a Hadassa de seus planos para aquele dia. Após o almoço ele seguiria com as crianças para Betânia e ali permaneceria tomando providências para que as crianças tivessem conforto e segurança durante a estadia que poderia ser de meses. Enquanto isso ordenou a Hadassa que permanecesse quieta e dentro de casa para não despertar a curiosidade dos vizinhos quanto ao seu real problema de saúde. Ele estaria de volta à Jerusalém no dia seguinte para encontrar meios de dar conforto à sua esposa até quando fosse possível.
Betânia logo foi alcançada por Harim, Uri, Ofir e Vasti, mesmo viajando a pé, porque dista mais ou menos 3 quilômetros de Jerusalém. Os pais de Harim receberam a notícia da enfermidade de Hadassa, sua nora, com muito pesar e aconselharam seu filho a procurar o Nazareno, um homem chamado Jesus e que diziam maravilhas dele e falavam de muitas curas, inclusive de cegos, aleijados e leprosos e até que ressuscitou um homem chamado Lázaro, quatro dias após sua morte; e houve rumores recentes que ele encontrava-se pregando a palavra de Deus, de quem se dizia filho, naquela região.
Esta notícia alegrou Harim que prometeu procurar Jesus no dia seguinte antes de partir para Jerusalém.
A noite se fez e a madrugada a seguiu, trazendo consigo os primeiros raios de luz do domingo que cuja manhã foi a mais tenebrosa na vida de Hadassa, pois ela foi alcançada por uma terrível febre que a fez delirar e gemer alto, chamando a atenção dos vizinhos que correram em seu socorro.
A ajuda não foi prestada visto que logo as pessoas perceberam o mal que Hadassa abrigava e tinham medo de aproximarem-se lhe servindo apenas um chá de ervas para baixar a febre e logo que viu-se melhoras nela, a convidaram para seguir rumo ao campo leprosário que ficava fora da cidade. Hadassa, sozinha, desesperada e chorando, seguiu pela cidade bradando: “Impuro!”, “Impuro!”, “Impuro!”, para que as pessoas abrissem caminho e não a tocasse, para evitar o contágio. Assim determinava a lei de Deus.
Ao mesmo tempo, quando amanheceu em Betânia, Harim tomou as últimas providências quanto ás crianças e ganhou o mundo para se informar do paradeiro de Jesus. Não foi longe. O primeiro cidadão abordado por Harim informou, com entusiasmo, que quem ele procurava encontrava-se naquele momento em Betânia, mais precisamente na casa de Simão, antes vindo da casa de Lázaro. De posse das informações necessárias, Harim chegou à casa de Simão, sendo ali informado que Jesus já partira, na direção de Betfagé.
Harim não ficou decepcionado visto que Betfagé ficava no caminho para Jerusalém, que também era seu destino. Ao começar a caminhada, encontrou um grupo de pessoas que também seguia para Jerusalém para ver Jesus e participar das festas da páscoa que se aproximavam, quando ficou sabendo das maravilhas que Jesus vinha praticando e ensinando em nome de Deus. Ficou sabendo que Simão era um ex-leproso, provavelmente curado por Jesus e Lázaro tinha sido por ele ressuscitado. Sua esperança de cura para Hadassa tornou-se agora muito grande na pessoa de Jesus e Harim vivia uma ansiedade incalculável.
Ao chegar em Betfagé sua ansiedade não foi saciada, pelo contrário, aumentou, após a informação que o Senhor, como era também conhecido Jesus, havia tomado emprestado uma jumenta e um jumentinho, no qual partira para Jerusalém.
Enquanto isso, Hadassa atravessava Jerusalém, cambaleando, desesperada, agora quase sem voz pronunciando a palavra “impuro” e as pessoas agitadas e apressadas carregando em suas mãos galhos de árvores, notadamente folhas das palmeiras típicas da região, nem percebiam aquela mulher angustiada.
Todos se aglomeravam na entrada da cidade, por onde Hadassa tinha que passar em busca do campo destinado aos leprosos.
De repente surge aquele homem sereno, que dominava a todos apenas com sua presença, cavalgando um jumentinho, nunca antes montado, sendo saudado por todos que aos gritos de “Jesus”, “Cristo”, “Nazareno”, “Senhor”, “Messias”, “Profeta”, “Bendito Rei que vem em nome do Senhor”.
Muitos tentavam tocá-lo, outros jogavam no chão à sua frente as palmas que traziam nas mãos ou mesmo seus mantos ou vestes disponíveis para que Jesus passasse sobre eles.
Hadassa não tinha mais força para prosseguir. A multidão que acompanhava Jesus crescia cada vez mais e corria em sua direção e foram inevitáveis os esbarrões jogando ao chão a mulher moribunda. A poeira subiu com o vento e a terra atingiu suas feridas, passando por suas vestes rasgadas.
Hadassa ainda estava no chão, quando Jesus passou por ela e por cinco segundos olhou para dentro de seus olhos sem nada dizer, mas demonstrando muita compaixão e seguiu seu destino para cumprir sua divina missão.
Na cabeça de Hadassa, aqueles cinco segundos duraram cinco séculos. Ela viu a reprodução de sua vida desde criança; o olhar penetrante e cheio de amor de Harim, quando de seu primeiro encontro; o nascimento de seus três filhos, um a um; o amor dedicado por seus pais; enfim, os nove últimos anos de felicidade completa.
Ela estava sentada no chão envolvida nesses pensamentos, quando uma voz conhecida pronunciou alto o seu nome. Ela abraçou Harim chorando muito e ele ofegante lhe fazia muitas perguntas sem esperar respostas.
Harim ajudou a hadassa a levantar-se e finalmente ela narrou, em breve relatório, o que aconteceu naquelas últimas horas.
“Então você esteve com Jesus?” Perguntou ele. “Não. Jesus apenas olhou para mim por um momento, mas algo estranho aconteceu, porque o desespero em que eu estava tomada se foi e com ele meus temores, minhas aflições, a ansiedade e até a febre não a sinto mais”.Respondeu ela.
Harim, olhando-a fixamente, perguntou: “E o que você fez com as suas feridas?” “Estão cobertas com terra e poeira, por isso as pessoas não fugiram de mim”. respondeu ela.
Harim tirou seu turbante e com ele umedecido com seu próprio suor passou-o fortemente na face de Hadassa retirando a poeira e terra que a cobria.
Ele ficou paralisado com o que viu. Hadassa exigiu satisfação, e ele disse, quase gritando: “Você está limpa”. “Você está pura”.
Hadassa entendendo o milagre que aconteceu, chamou Harim para que eles seguissem Jesus para agradecê-lo e mostrar a todos o que Ele fez por ela e também para chegar-se mais a Deus, de quem ambos estavam de certa forma afastados nos últimos anos.Nada pediram a Deus, mas esqueceram de agradecer cada dia de felicidade recebido.

7 Comments:

  • At 7:36 PM, Blogger brasil said…

    José Luis
    Sobre o texto
    Lindo.

    Mas você sabe que estou num processo de reavaliação do meu relacionamento com Deus.

    Deus não explica o porque, ele quer que você aceite.

    E eu estou pensando se isso está certo, mesmo sabendo que eu não tenho nem o direito de pensar.

    O problema é que o retrato de família está na parede ... e ele dói, doi muito.

     
  • At 7:38 PM, Blogger brasil said…

    Respondendo a José Luis:

    JL, aposte como Blaise Pascal
    A Aposta de Pascal, apresentada nessa publicação, texto 233, faz a seguinte sugestão:

    Uma vez que a existência de Deus não pode ser determinada utilizando-se a razão, uma pessoa deveria então "apostar" que Deus existe, porque dessa maneira há tudo a se ganhar, e nada a se perder.

    Pascal inicia o argumento com a premissa de que a existência de Deus não pode ser provada ou desacreditada pela razão humana.
    E uma vez que não é possível deixar a razão decidir se acreditamos na existência de Deus, o que nos resta é apostar, seja por adivinhação ou por golpe de fé.

    Segundo Pascal, fazer essa aposta é inevitável, e que qualquer pessoa que é incapaz de acreditar em qualquer evidência contra ou a favor da existência de Deus precisa ao menos encarar o prospecto que a felicidade infinita está em risco...

    Diante dessa decisão sob incertezas, a matriz do *valor esperado (conceito dos ramos de teoria das probabilidades e estatística) é a seguinte...


    Viver como se Deus existisse e Deus existe: Vida Eterna (+infinito)

    Viver como se Deus existisse e deus não existe: Nenhum resultado (0)

    Viver como se Deus não existisse e Deus existe: Não especificado, talvez Inferno ou purgatório ou morte espiritual (0, <0 ou -infinito)

    Viver como se Deus não existisse e Deus não existe: Nenhum resultado (0)


    O valor esperado de acreditar é sempre maior que o valor esperado de não acreditar...
    Dados esses valores, a opção de viver como se Deus existisse domina a matriz e é a única decisão racional.



    Entretanto, Pascal não trata a aceitação da aposta, por si só, como suficiente para a salvação.
    E diz também que o entendimento dessa conclusão é apenas o ímpeto para a fé, e não a fé em si mesma: "...

     
  • At 7:39 PM, Blogger brasil said…

    Vera
    Paulo
    Vc, como sempre, me surpreende... do pouco que entendo da Divindade e misericórdia vc é um homem escolhido por Ele.... daí vc exalar tanto perfume... daí vc oferecer só poesia, lirismo, bondade e todas as virtudes essenciais para que um ser humano possa, de fato, ser chamado de homem, filho de Deus. Melhore rápidinho e nao abuse... meu abraço

     
  • At 7:41 PM, Blogger brasil said…

    Vera, querida.
    V faz sentir-me um abade, mas eu sou um contestador.
    Acredito em Deus ao meu jeito e não com ele é descrito.
    Lembro a todos que Lázaro foi ressuscitado para mais uma
    prova do poder de Deus, mas como homem, Lázaro voltou
    a morrer. Isso já é outra lição...

     
  • At 7:44 PM, Blogger brasil said…

    Vera
    Prezado Paulo
    Todos os abades e avatares, que eu saiba, foram e sao contestadores... veja Sai Baba nos dias de hoje e, para mim , realmente, Jesus foi o maior dos anarquistas.

     
  • At 7:45 PM, Blogger brasil said…

    Vera
    Paulo
    Sai Baba diz:

    só existe uma raça - a da humanidade
    só existe uma linguagem - a do coraçao
    só existe uma religiao - a do AMOR
    e só existe um Deus e Ele é Onipotente

     
  • At 7:46 PM, Blogger brasil said…

    Luciana
    Concordo com a Verinha...
    Se aqui tivesse um botãozinho "like" q nem tem no FB, eu teria clicado nele aqui
    .
    "Paulo
    Vc, como sempre, me surpreende... do pouco que entendo da Divindade e misericórdia vc é um homem escolhido por Ele.... daí vc exalar tanto perfume... daí vc oferecer só poesia, lirismo, bondade e todas as virtudes essenciais para que um ser humano possa, de fato, ser chamado de homem, filho de Deus. Melhore rápidinho e nao abuse... meu abraço
    .

    Podescrer Paulo, tu és grande, grande alma, viu!

     

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