Perene

Friday, December 30, 2005

Do Nada Ao Nada

Uma Viagem Fantástica

“Absolutamente nada”. Era o que eu via, sentia, pensava. Escuridão total. Não havia tato, som, gosto ou cheiro. Nada me tocava. Estranhamente me sentia confortável, seguro e... Feliz.
É! Mesmo inconsciente, era isso que sentia quando de repente, ... Excitação!!!
Algo me comprimia, me apertava, me sufocava. O ambiente em que eu estava ficou pequeno, úmido, pegajoso, aquecido e prazeroso, fui tomado pela sensação de um vulcão prestes a explodir.
Surpresa. Eu não estava sozinho. Havia uma infinidade de seres semelhantes a mim, porque agora eu os sentia, os tocava e eles me tocavam. Não os via mas o tato denunciava algo com apenas cabeça e rabo, e, se eram a mim semelhantes, eu também tinha aquele aspecto estranho.
Agora o calor tomava conta de meu corpo, dos meus companheiros e também de todo o ambiente. Uma euforia de bons e incontroláveis sentimentos nos jogou violenta e prazerosamente em outro ambiente à velocidade de um espirro.
A temperatura parecia a mesma. O lugar, agora mais tranqüilo, transmitia segurança, conforto e até o odor era agradável. Havia no ar sentimento de carinho, amor, paixão e... Competição!
Todos corriam, ou melhor, nadavam na mesma direção que eu sentia ser atraído como se estivesse sendo puxado por um ímã. Se era um ímã eu não sei, mas tinha uma forma redonda como uma pequena bola de gude e o desejo de penetrá-la dava-me força superior a que tinha.
Puxa daqui, empurra dali e finalmente consegui romper aquela esfera que eu encontrei no caminho a viajar com destino ignorado.
Não sei o ocorrido com meus companheiros de aventura, mas o que eu encontrei dentro daquela condução foi nada mais que minha outra metade que nem sabia existir e ao meu primeiro toque ela se incorporou a mim e, a transformação foi imediata e contínua.
Após breve viagem, cheguei a um local que poderia chamar de “meu lar”. Sentia-me crescer e desenvolver sem parar, com segurança, carinho e amor.
O tempo passou depressa e eu já não tinha só cabeça e rabin... Ai meu Deus! Na pressa de entrar na bolinha meu rabinho ficou de fora! Não tem mais importância. Eu agora sou muito mais bonitinho porque eu ganhei em troca um corpo com duas pernas, pés, braços e mãos e para decorar a cabeça fui premiado com dois olhos, ouvidos, orelhas, uma boca e um nariz. Tudo isso sem contar com um bastão e duas bolas que são de caráter privado e não devem ser expostos em público.
De repente, dores e compressões tornaram o ambiente agitado e inóspito e uma força inexplicável me empurrava em direção àquela luz que surgiu do nada e com seus raios fúlgidos me obrigava a manter meus olhos fechados.
Eu estava com muito medo quando algo me pegou pela cabeça e me puxou com força para aquele brilho intenso. Eu estava apavorado e aos poucos abri os olhos e pela primeira vez, imagens foram se formando diante de mim.
Vi o novo ambiente em que eu estava. Tinha sons nunca antes ouvidos. Seres semelhantes a mim, só que maiores e estavam dentro de sacos esquisitos e usavam máscaras.
Eu não entendi nada. Não falavam a minha língua, uns sorriam enquanto outro me batia e um outro colocava coisas estranhas em meu nariz, boca e ouvidos. Eu chorava aos prantos e desta vez escutava meus próprios gritos. Fui posto sobre um daqueles seres, que chorava como se estivesse triste, mas no seu rosto brilhava a luz da felicidade explícita e pronunciava algo estranho, parecido com “É a mamãe. É a mamãe”.
Pela primeira vez, meus sentimentos eram ativados pela visão e assim senti amor à primeira vista. Minha cabeça repousava entre duas grandes bolas com bicos que eu achei bonitinhas e que tinham cheiro agradável que atiçavam meu apetite. Senti fome. Acabaram de me tirar de um saco cheio d’água e agora me deitaram dentro de um objeto cheio d’água. Que gente confusa!
De volta à mamãe, fui premiado com aquelas bolas enormes, uma de cada vez. Quando tentei engoli-las, não consegui, mas fiquei tão cansado que adormeci e sonhei coisas indecifráveis, senti-me menos seguro, mais feliz.
Acordo dentro de um grande objeto que roncava e se movia e descobri a velocidade de uma viagem que começou desde aquele dia da excitação. Cheguei ao destino e lá conheci pessoas novas e velhas que se dividiam entre irmãos, avós, tios, e um que tinha cara de bobo e não parava de dizer: “É o papai, é o papai”.
Neste novo lar, cresci e aprendi que era passageiro no Planeta Terra, viajando a 460 metros por segundo em torno de si mesma e a 30 quilômetros por segundo em torno do Sol, com destino ignorado.
Aprendi também que tudo que existe no universo foi criado por Deus e me senti muito grande e importante. Afinal sou filho do Dono.
Um dia envelheci e após trabalho, filhos e netos estava pronto para outra viagem que, como a primeira, não sabia quando começava, por onde seguia e qual seria o destino.
Só sei que a primeira viagem encerrou-se com o apagar da luz e “absolutamente nada”.

11 Comments:

  • At 9:02 AM, Blogger Clara Lua said…

    Paulo
    Lindo este texto sobre o início da vida!
    Realmente conseguí viajar pelos mecanismos da concepção de uma forma gostosa e alegre!
    Que bom poder estar aqui e participar deste início de um escritor.
    Parabens

     
  • At 12:06 PM, Blogger brasil said…

    Anônimo disse...
    SINOS DE SAUDADE®
    Mãe, por quê os sinos parecem chorar?
    -Meu filho, os sinos dobram por alguem que foi p'ro ceu e deixou este lugar.
    Então, mãe, quando eu for tambem vai ser assim?
    -Será meu filho, mas não pode e não será antes de mim.
    Não seria melhor p'ra nós dois?
    -Não meu filho, melhor eu antes e tu depois.
    Então, mãe, eu vou ter que chorar a tua falta junto com os sinos?
    -É meu filho, todos nós choramos, é o destino.
    Mãe, os sinos tocam tambem por outros motivos?
    -Tocam sim filho,
    tocam em oração,
    tocam o coração,
    tocam por quem nasceu,
    tocam por quem morreu,
    tocam as trindades,
    tocam as liberdades
    mas sobretudo, tocam muito de saudade.
    david®

    10:13 AM


    Anônimo disse...
    MÃE®
    BERÇO DO MEU SURGIMENTO,
    MORADA SEGURA, ACONCHEGANTE.
    FOSTES O MEU BOM ALIMENTO,
    PENA SÊ-LO SÓ UM INSTANTE.

    AO RESSURGIR FOSTES AFAGO,
    NO DESENVOLVER, A FIRME MÃO.
    O TEU SÁBIO SABER AINDA TRAGO
    PLANTADO EM MIM, NO CORAÇÃO.

    EMPOSSADO DA VIDA, CONSELHEIRA.
    NA ADVERSIDADE, PROTETORA.
    EM QUAISQUER TEMPOS, COMPANHEIRA
    E, AS VÊZES, RESGATANDO, CONDUTORA.

    HOJE, SÓ LUZ P'RO CAMINHO.
    O TEU AMOR AINDA CONDUZ,
    ELE ENVOLVE O TEU FILHINHO
    QUE DUVIDA: SERÁS APENAS LUZ?

    DAVID®

    10:17 AM

     
  • At 3:18 PM, Blogger Ana Barreto said…

    Meu amigo, quem lê teu escrito crê que fizeste uma viagem no tempo, até o ventre de tua mãe e depois, passeaste ao futuro, para sentir como será tua partida... Muitas vezes sentiremos essas sensações, mas poucas vezes alguém descreverá as mesmas com tanta fidelidade... Beijos admirados... Tua amiga Ana Barreto.

    PS: Grata pela força, colocando o meu link nas tuas dicas... Beijos!

     
  • At 8:28 AM, Blogger brasil said…

    Lucinha
    Paulo!!!!
    Puxa... você tem um estilo diferente de escrever! A gente fica a princípio imaginando do que você está falando e depois vai viajando no texto! Pra dizer a verdade, acho que você tem um estilo único, pois nunca vi nenhum autor escrever desta forma! Parabéns mesmo! Você contou a sua vinda ao mundo com maestria! Somente no final é que vou ter que pensar um pouco, talvez ler novamente pra entender.... bem, vou tentar! hehe
    Você tem algum livro já editado?

     
  • At 8:31 AM, Blogger brasil said…

    Resposta à Lucinha
    O livro foi editado e impresso por mim em casa mesmo com a ajuda de meu filho, Paulinho Henrique. Depois foi levado à gráfica onde recebeu a pressão, corte e capa.
    Foram feitas quarenta unidades e distribuídas entre parentes e amigos.
    Eu não tive e não tenho objetivos mercantis, por isso a distribuição acima e posteriormente publiquei aqui na Internet, onde pode ser lido e visto de capa fechada.

     
  • At 8:34 AM, Blogger brasil said…

    José Luis
    Gostei. Vou ler novamente, Paulo.
    Depois opinarei.

     
  • At 11:51 AM, Blogger brasil said…

    Sonhar é preciso...amar é preciso
    amigo Paulo Brasil
    poeta Milton Gama

     
  • At 11:53 AM, Blogger brasil said…

    Anorkinda Neide (Via Orkut)
    oh céus! Do nada ao nada... arrepios e lágrimas...
    de q mais o autor precisa pra ser feliz?

     
  • At 11:55 AM, Blogger brasil said…

    Vc já chega derramando suas emoções num conto encantador!
    Parabéns pelo trabalho!

    bjs no coração!

    Diná Fernandes (Via Orkut)

     
  • At 8:44 AM, Blogger brasil said…

    Nossa! Que lindo! O Prólogo muito claro já dá uma visão do que vem pela frente. Agradecimentos - foi ao mesmo tempo hilário e terno. Confissão - quantos textos foram perdidos durante nossa vida, né! Às vezes, até um pensamento marcado na correria e deixado para trabalhar essa ideia mais tarde, mas o mais tarde nunca chega, ficou ali perdido num canto qualquer da nossa memória. E o papel??? Só Deus sabe que fim levou. Do Nada ao Nada - um dos textos mais completos que já tive o prazer de ler: humor, emoção, sabedoria. Amei!

     
  • At 7:10 PM, Blogger brasil said…

    Sônia Regina Machado e' o nome de minha amiga que deixou o recado acima, via MSM

     

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