Perene

Friday, December 30, 2005

O Vôo do Medo

Saulo se encontrava em Recife há três meses e os compromissos o chamavam de volta para o Rio de Janeiro, agora em caráter de urgência. Os recursos financeiros se extinguiam rapidamente, assim como o tempo disponível. A viagem de ônibus, além de aventureira, exigia o tempo que ele não mais tinha, como também disposição e paciência que os seus 46 anos deixavam a desejar.
O socorro não tardou e veio de perto, da família, melhor dizendo: Wilmar, seu cunhado, trabalhava numa grande companhia aérea e seu cargo o credenciava a usar passagens gratuitas.
O plano: Wilmar reservou a passagem para o Rio nas primeiras horas do dia, se apresentou para o “check in” e em seguida saiu da área interna do Aeroporto Internacional dos Guararapes e se dirigiu para umas bancas de frutas existentes no outro lado da praça, em frente ao aeroporto.
Saulo chegou, recebeu de Wilmar o bilhete de embarque, despediu-se e seguiu com sua bagagem de mão para o portão de embarque, onde aguardou o chamado.
Foram longos e angustiantes vinte minutos de espera, num aeroporto vazio com poucas pessoas divididas entre o “check in”, embarque e espera de poucos vôos programados naquela madrugada. Saulo pensava nos momentos que antecederam aquela espera; na conversa com Wilmar que ofereceu aquela solução; na recusa da ajuda alegando riscos de perda do excelente emprego que Wilmar detinha; no argumento de Wilmar, salientando que não havia identificação do passageiro na área de embarque, o que só ocorria na área do “chek in”; na possibilidade de um “azar” e eles se verem envolvidos com autoridades.
Num determinado momento, seu rosto desmanchou a preocupação desenhada e deu espaço para um breve sorriso, quando lembrou de seu outro cunhado Heraldo e seu sobrinho Esdras, que o levaram de casa ao aeroporto.
No caminho faziam planos de como eles deveriam proceder naquela “Operação Embarque” que aconteceria nas próximas horas: Heraldo sugeriu que avançassem em alta velocidade em frente ao aeroporto, um freio brusco, uma saída rápida e novamente o carro em alta velocidade, se afastando do local.
Esdras opinou pela velocidade, mas não o freio, apenas o automóvel em menor movimento, um corpo que cai e rola para a calçada e a fuga do veículo sem identificação; e todos riram do temor indisfarçável de Saulo.
Seus pensamentos foram tragicamente interrompidos pelo chamado da funcionária da empresa aérea, fazendo desaparecer o sorriso, sendo substituído por expressão séria imposta pela situação.
Primeiro ato tudo aconteceu conforme o previsto por Wilmar: a funcionária limitou-se em conferir o cartão de embarque, encaminhando os quinze passageiros para a aeronave a 50 metros.
O segundo ato ocorreu normalmente, quando da acomodação dos passageiros no avião. A demora para decolar pareceu bem maior que a de praxe, até que Saulo cerrou os dentes como se quisesse impedir que seu coração saísse pela boca, ante a visão, pela janela do avião, de uma tropa da Aeronáutica que marchava em direção ao aparelho e depois se detendo e perfilando-se em frente à escada de acesso à aeronave.
Os pensamentos de Saulo se multiplicavam e se atropelavam mutuamente, até que o sargento ordenou e os praças se deslocaram aos pares em várias direções internas do aeroporto.
A respiração tentava entrar em ritmo normal, quando um funcionário subiu a escada de acesso falando ao “walkie-talkie”, fez uma pausa na porta e seguiu em direção ao interior da aeronave, tudo sob o olhar atento de Saulo, através do reflexo do vidro da janela que dava visão para fora e dentro do aparelho. “Por favor, cavalheiro, qual seu nome?” Perguntou o funcionário. Saulo respondeu com segurança, dando o nome completo de Wilmar. O funcionário agradeceu, voltou até a porta, olhou numa lista que tinha às mãos, falou algo no rádio transmissor portátil e desceu a escada que pouco depois foi recolhida, a porta fechada, começou o taxiamento e, finalmente, a aeronave se fez flutuar.
Um grande sentimento de paz e tranqüilidade invadiu o peito de Saulo que o levou a adormecer. O toque suave da aeromoça o despertou e informou que o Aeroporto Internacional do Galeão se aproximava e ele deveria sentar-se corretamente e usar o cinto de segurança.
A vista estava esplendorosa, o dia nascia lindo no horizonte, por cima das nuvens e o avião mergulhou no sentido da pista. Lá embaixo tudo escureceu, chovia e ainda era noite. O desembarque tinha seu curso normal e Saulo e mais dois passageiros foram encaminhados para a alfândega, por policiais federais, o que não era ato comum.
O pesadelo de Saulo voltou a atormentá-lo, trazendo o mal estar de duas horas e meia e mais três mil quilômetros atrás. Ao ser identificado como passageiro doméstico foi liberado sem ter sua bagagem devassada e nenhuma outra pergunta feita. Saulo pensava em esperar o dia amanhecer outra vez para tomar o rumo de casa, mas os maus pressentimentos daquela viagem o fizeram deixar para trás, o mais rápido possível, a área do aeroporto.
À noite, ficou sabendo de Wilmar, por telefone: que, a hora foi mal escolhida, sendo melhor durante o dia, com mais movimento; que, ao sair do “check in” e dirigir-se ao fruteiro, ele foi observado pelas duas moças que o atenderam e o aeroporto tem boa parte da frente com grandes portas de vidro. Ao perceber esse detalhe, Wilmar, que aos 36 anos de idade mantinha boa forma física que chamava a atenção feminina, se colocou por trás das bancas enquanto saboreava as frutas nordestinas; que, ao chegar a hora, sua presença não foi notada no portão de embarque pelas funcionárias, o que as fez comunicarem-se com o funcionário do embarque e este se dirigiu a Saulo pelo número do assento; que, a coluna de praças que marchou na pista, estava substituindo o plantão anterior que fazia a segurança das aeronaves e pistas internas no aeroporto; que, finalmente, a passagem por Órgãos federais no Aeroporto do Galeão, foi necessária por se tratar de vôo internacional Fortaleza / Buenos Aires com escalas em Recife / Rio / Porto Alegre.
Se Saulo soubesse desses detalhes no momento de cada acontecimento, teria feito uma viagem de aventura e não “O Vôo do medo”.

6 Comments:

  • At 9:12 PM, Blogger brasil said…

    Assunto: Nasce um escritor !
    Data: Sáb, 8 Jan 2005 12:17:54 AM Hora Padrão Leste da Am. Sul
    De: J soares f
    Para: PAULOBRASILLIMA

    Oi, Paulo.

    Acróstico


    [P]arabens!
    [A]chamos o livro, super interessante
    [U]tiliza em seus contos,de muito sentimento.
    [L]ogrando êxito no que quer transmitir
    [O]ntem, acabei de le-lo.

    [B]aseado em fatos emotivos e divertidos.
    [R]imos com o conto do vôo.
    [A]o lembrar do Saulo..
    [S]eus sustos e receios.
    [I]ndo até o final da leitura.
    [L]ado a lado com o interêsse.

    [L]emos com muito carinho.
    [I]ntensa emoção sentimos.
    [M]ariath, sendo lembrada.
    [A]dão, tambem homenageado.

    Muito obrigado!!!

    José e Carminha.

     
  • At 9:26 PM, Blogger brasil said…

    ... para José e Carminha:

    Ao trazer "Perene" para a Net excluí, por fórum íntimo, alguns contos e homenagens postados no exemplar em seu poder, como também acrescentei outros textos de interesses gerais, no encerramento do livro. Têm humor e espero que sejam de seus agrados. Espero compreensão pelas ausências que serão notadas. Muito obrigado. Bjs. Paulo.

     
  • At 2:40 PM, Anonymous Maria da Glória / Taguatinga_ DF said…

    Perene é para sempre. Palavras ditas voam ao vento, palavras escritas se eternizam e serão as testemunhas implacáveis do tempo e do teu pensamento.

     
  • At 6:09 AM, Blogger brasil said…

    Resposta a Maria da Glória:

    Sua declaração é a mais pura verdade.
    Aqui estão registrados meus pensamentos, opiniões e jeito de ver a vida. Algumas sem seriedade, jocosa mesmo. Tudo é mutante perante o tempo e estarei sempre preparado para pedir perdão, se necessário for, por uma opinião proferida, como também mudar meu pensamento a respeito de qualquer coisa que eu tenha escrito.
    Tenho esse direito.

     
  • At 12:17 PM, Blogger brasil said…

    Sônia Regina Machado _ Via MSN

    Gostei do "O voo do medo" - eu imaginei outra história e, afinal, é bem assim: o medo da nossa consciência> É só fazer alguma coisa errada que parece que até as paredes nos condenam.

     
  • At 12:24 PM, Blogger brasil said…

    V acertou em cheio. A história e' veridica e pessoal e apenas troquei os nomes de forma bem semelhante.

     

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