Perene

Thursday, December 29, 2005

PERENE

Era noite e estava muito frio. A lua alta no céu iluminava o campo até a encosta longínqua daquela pequena montanha ao sul.
Apesar de sua beleza, o luar revelava a silhueta de um homem sentado numa pedra, cabisbaixo com uma das mãos apoiando o rosto e a outra a segurar o cajado.
Seus olhos negros e tristes, contemplavam aquele fim de pasto ralo e queimado que anunciava fome e fraqueza para seu rebanho de ovelhas que numerava dúzia e meia, quando já se somou quatro dúzias.
Sua pele morena e enrugada pelo sol forte da região trazia idade superior a que realmente tinha aquele homem rústico e sofrido, mas ainda jovem aos quarenta anos.
O desespero era, naquela noite, além daquelas ovelhas doentes e de lã sem valor cambial, sua única companhia, que o obrigava a pensar em sua esposa e cinco filhos que passavam necessidades e lutavam contra enfermidades trazidas pela falta de água e comida.
O socorro de vizinhos e parentes era impossível em virtude das distâncias e a vulnerabilidade de todos ao holocausto trazido pela natureza àquela região agrícola e pecuarista.
Ele estava envolto naqueles nefastos pensamentos quando notou que a noite ficara mais clara como se o céu tivesse ganhado de presente uma segunda lua cheia.
Olhou para o infinito e viu que na realidade surgiu uma grande e brilhante estrela seguindo uma trajetória óptica que indicava atrás da pequena montanha seu ponto de encontro com a Terra.
Um arrepio fez tremer aquele alto e magro corpo que com agilidade se pôs de pé e pensou em caminhar em direção daquele ponto ilusório.
Ele conhecia bem a região e sabia que uma caminhada noturna era perigosa, sujeita a acidentes com cobras, escorpiões e quedas provocadas por pedras ou buracos, além de cansativa.
Ajeitou mais uma vez seu turbante, apertou as amarras de suas velhas sandálias de couro, ajustou a tira de pano que dividia na cintura aquele roupão comumente usado pelos habitantes do lugar, segurou firme o cajado com a mão direita, respirou fundo e começou aquela caminhada, empurrado por um sentimento que não entendia, em busca do desconhecido que ele previu, mas em momento nenhum acreditou.
Após uma hora e meia de peregrinação alcançou o ponto mais alto daquela colina que de vegetação baixa, lua alta e luminosidade extra daquela estranha estrela, dava vista, ainda distante, de uma pequena propriedade rural de seu vizinho mais próximo.
Retomou a caminhada, agora ajudado pela descida e a cada passo dado naquela direção seu coração era tomado de um entusiasmo inexplicável, havendo momentos em que se surpreendia quase correndo e tropeçando por absoluta falta de cuidados, não indo ao chão graças à habilidade com que manejava o cajado.
Mais uma hora se passou e finalmente ei-lo tremulo perante um pequeno e modesto estábulo, piso de terra, erguido de madeira não trabalhada, coberto de palhas secas de palmeiras típicas regionais.
Entre alguns animais de criação, destacavam-se três camelos que possuíam celas, adornos e rédeas trabalhados artisticamente com enfeites de minerais preciosos que denunciavam o egrégio poder de seus proprietários e um pequeno e modesto jumento, no pelo, que demonstrava exaustão por trabalho pesado ou viagem longa.
Mais uma vez o pastor peregrino olhou para o céu e agora passou a acreditar que era aquele o lugar indicado pela estrela que com uma calda majestosa apontava claramente para o estábulo que, do seu interior emanava uma tênue luz de lamparina e um breve sussurro de recém-nascido.
Passo a passo, aproximou-se lentamente para não fazer ruído e denunciar sua presença antes de descobrir o que estava ocorrendo naquele lugar.
Meia porta, da altura do peito para baixo, fechava o estábulo e ele teve visão completa do seu interior onde quatro homens, duas ovelhas, um bezerro um galo, algumas galinhas e uma vaca circundavam, deitada no feno, uma mulher convalescente e, dentro da manjedoura revestida de feno, um Recém-nascido. Com exceção dos animais, todos estrangeiros naquela região de Belém; três, dos quatro homens, elegantemente vestidos, portando jóias e adereços de vestimentas eram facilmente identificados como os proprietários dos robustos camelos lá fora; o quarto homem e a mulher estavam modestamente vestidos para uma jornada; na face dele aparecia um misto de preocupação e felicidade paterna; na dela, o cansaço físico e o brilho da alma da parturiente.
O ambiente era pobre e inadequado para aquele evento; o clima emocional era de paz contagiante e ele ficou plantado, de pé, na porta do estábulo por mais de uma hora e não queria entrar por não conhecer ninguém e por não ter levado nenhum presente de boas vindas para o Bebê.
Se sua presença foi notada, ele não percebeu, a não ser por um breve momento quando a Criança abriu um pouco os olhos, olhou em sua direção, quase sorriu, bocejou e novamente adormeceu.
Ele foi tomado por uma alegria estranha, seu coração palpitou e foi interrompido pelo galo que fez anunciar o dia que se aproximava; ele precisava ir embora cuidar de suas frágeis ovelhas ou o que restavam delas. Antes de partir, lembrou que o único bem que tinha naquele momento era o velho cajado de madeira nobre da região do Nilo, que lhe foi presenteado por seu querido pai antes de sua morte e que até aquele instante, nunca havia se separado dele.
Com carinho passou a mão por cima do nome de seu pai gravado a fogo no meio do cajado e o deixou encostado à porta e seguiu seu caminho de volta.
Em cima do morro, olhou para o céu e viu a estrela lentamente desaparecendo, dando lugar à luz maior, a luz solar; a sua calda se desfazia e caía em pequeninos pontos cintilantes que ao aproximar-se do solo se transformava em gotas de orvalho, molhando suavemente a relva ou o que restava dela.
O pastor ficou entusiasmado, pois não chovia, mesmo um pouco, a quatro estações. Quando a luz se completou na sua propriedade, ele se espantou com tanta surpresa.
A relva lentamente crescera e o amarelo queimado dava lugar ao verde esperança. Tanta felicidade não cabia dentro de si e ele se pôs de joelhos louvando em brados a Deus.
Correu para dentro de sua casa contando o ocorrido, aos soluços, à sua família e de imediato levou à suas anotações o dia do acontecimento milagroso.
Belém, 25 de Dezembro de um ano qualquer de seu calendário. Ele só não sabia que aquele foi o Primeiro Dia da Era Cristã.
Perene.

1 Comments:

  • At 1:30 PM, Anonymous Maria da Glória said…

    "PERENE"

    É um conto delicado que nos encaminha ao berço do Menino Deus de uma forma curiosa. Além da bela descrição daquela noite incomum, ainda nos enternecemos com o fato de um homem se despojar do único bem que possuía para presentear o Bebê Santo que enche de ternura os corações dos Cristãos a cada noite de 25 de dezembro.

     

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